Salve!

Para este post de Aqui, agora, fica registrada uma das muitas lembranças lindas que tenho de Roma. Esta lembrança faz hoje aniversário de uma década e é nada mais, nada menos, que a memória escrita do casamento desta, que vos escreve, revista e ampliada nos dias de hoje. Texto dedicado ao meu colega de universidade, cúmplice na vida, pivô das maiores mudanças, parceiro de aventuras e viagens, guru do tudo e do nada, flerte, técnico eletricista, namorado, amigo, marido e pai das minhas filhas.

∞♥∞

Para entrar no clima: Canon in D, de Johann Pachelbel ♥

Caríssimos!

É com grande prazer que escrevo hoje, retornada de uma breve porém inesquecível lua de mel na Sicília, para contar a todos os interessados sobre o nosso Casamento.

∼ (Por onde começar? É impossível ilustrar com palavras; assim que organizarmos as fotos e encontrarmos o melhor meio de enviá-las, assim o faremos!) 

∼ Contagem regressiva: um dia.

 

Fui buscar o Rodrigo na estação Termini ao meio-dia, e aceitando as sugestões sempre sábias da Antonella, minha amiga, madrinha de Casamento e companheira de casa em Roma, escrevi numa placa: “Il Mio Futuro Marito”. A minha surpresa, simpática, nada foi perto da surpresa do Rodrigo: as alianças! Trocar alianças de noivado em Termini, um dia antes do casamento: não tem preço (ah, l’amore)!

Um dia interessante na companhia do noivo: almoçamos, descansamos um pouco; fomos às compras para os últimos detalhes que faltavam. Fizemos uma bagagem com uma muda de roupas, e deixamos no nosso hotel para a manhã do dia seguinte. Tensos, incrédulos e felizes pelo reencontro depois de um mês de saudades, voltamos para casa já à noite, e passamos num bar para comprar duas garrafas de cerveja (sedativo ;).

Uma das coisas lindas de Roma são as bancas de flores, que ficam abertas dia e noite, todos os dias, sempre iluminadas. Paramos na esquina e escolhi as flores do meu buquê, lírios cor de rosa. Disse ao florista que queria um pouco mais de verde para compor um arranjo; desconcertado pela falta de folhas, se dirigiu ao canteiro central da rua levando a tesoura de poda. Buquê mais italiano, impossível: eis o frescor e a espontaneidade da Itália, onde o florista vende flores, e talvez um pouquinho do canteiro público. Ficamos também com algumas rosas para a lapela do Rodrigo. Brindamos em casa com a Antonella, Matthias e David, enquanto eu fazia as unhas com uma misturinha fácil. Rimos um pouco, tomei um banho, lavei os cabelos e fomos dormir.

∼ Sensações estranhas.

 

Acordei várias vezes na madrugada da véspera. Por fim, às seis horas acordei definitivamente. Gostei do meu cabelo. Fiz a maquiagem. Quando entrei na cozinha encontrei uma supresa linda: balões, um cartaz: “Ana e Rodrigo oggi si sposi”, um cartão, flores, e cornetti (os croissants italianos) para o café da manhã. Um mimo! Continuei me arrumando. Passei minha roupa, acordei o Rodrigo e enquanto ele tomava banho, me vesti com um corselet e uma saia plissada. Botei algumas flores de tecido nos cabelos, os acessórios simples.

Tomamos o café da manhã juntos, montei o buquê com fita verde e trança rosa. Enquanto os amigos se arrumavam e faziam cones de arroz, coloquei a flor na lapela do Rodrigo. Chamamos um táxi, esperamos na feira de rua em frente à casa, onde os feirantes nos saudavam: “Auguri!!”, ou “Abbraccio la Sposa!!” (ha!), e fomos os cinco para Caracalla, com um taxista ligeiramente mal-humorado.

Reencontramos alguns amigos de Londres, a Verônica, também madrinha, amiga de longa data, e os pais e o irmão do Rodrigo, vindos do Brasil. O lugar é lindíssimo. É cercado de um gramado e uma arborização monumental e vívida, de frente para as ruínas das termas de Caracalla que dão nome à pequena ex-Igreja medieval onde se celebrou o Casamento. O clima era, atipicamente, nublado, o céu acinzentado. Paciência! Roma ainda assim é esplêndida.

∼ Dia D, Hora H.

 

A cerimônia foi formal, bem mais do que eu imaginava. Um cerimonialista ditava cada movimento. Um juiz de paz vestido com terno sóbrio e uma faixa transversal tricolor, verde, branco, vermelho, numa mesa altiva num plano mais alto. À frente, duas cadeiras imponentes ao centro, em brocado vermelho e estrutura ouro, ladeadas de duas cadeiras menores no mesmo material, para as testemunhas, Verônica e Antonella. Um fotógrafo oficial que parecia ter surgido do nada pedia algumas poses esdrúxulas. (Entorpecidos pela ocasião, obedecemos. Porque um casamento não permite em hipótese alguma o melhor juízo de ninguém!).

O juiz disse em voz alta, olhando o Rodrigo nos olhos: “Le Fedi”. Ele ficou confuso por alguns segundos, eu cochichei: “As alianças”. Ele fez um gesto imperativo de chamada com o dedo indicador, e o Rodrigo levou as alianças que ficaram expostas sobre a mesa. Às ordens do cerimonialista, ficamos em pé. O Juiz leu três artigos da constituição italiana que versam sobre o matrimônio. Interessante como o texto da lei era sensível aos assuntos mais subjetivos do Casamento (fidelidade, cumplicidade, reciprocidade, respeito mútuo e a inclinação natural para a paternidade e a formação da família). Nos perguntou se de fato desejávamos tudo isso.

Dissemos (repetidas vezes):

Sì.”

Sentamos. Levantamos de novo, dessa vez para assinar papéis e trocar alianças segundo ordenava o Juiz. Enquanto assinávamos os papéis, tocava ao fundo uma composição de Pachelbel… E o Juiz nos declarou casados.

**Nota: Neste momento, eu acho – se não me falha a memória – o Rodrigo cochichou: “Me dá um beijinho”. Interessante, como só hoje, dez anos depois, lembrei de incluir este detalhe que, no relato original, faltava. Talvez na época quisesse manter como um segredinho nosso**

Em nome da Comuna di Roma, ofereceu um segundo buquê de orquídeas. Cumprimentamos os amigos e familiares, e deixamos o recinto não sem antes posar para mais algumas fotos usuais como instruiu o fotógrafo. Se formou um pequeno mas enfático corredor polonês munido de cones de papel cheios de arroz. O fotógrafo se posicionou. Depois de arremessarem cada um a sua quantidade modesta de grãos, alguns convidados resolveram que seria melhor terminar o pacote todo logo.

Tiramos mais algumas fotos, depois do quê começou a chover ligeiramente. Fomos caminhando rumo ao Campidoglio. Cruzamos com um grupo de coreanos que fizeram reverência e disseram juntos: “Congraturations!”, depois por várias pessoas que aplaudiram, e um músico de rua que tocou a marcha nupcial ao saxofone. (O percurso a pé foi um momento simpaticíssimo :).

O clima seguia instável. Cruzamos o Foro Romano; quando finalmente chegamos à Terrazza Caffarelli, sobre o Museu Capitolino, a chuva leve se transformou num incrível dilúvio. Na Itália há um dito: “Sposa bagnata, sposa fortunata”. Seguindo esse princípio, sou uma noiva de sorte excepcional. Não resisti à superstição e tomei um breve banho de chuva, como não?

Afinal quem está na chuva, é para se molhar.

A caminho da recepção. Acervo pessoal desta, que vos escreve.

A caminho da recepção, uma vista de Roma. Esta nuvem cinza-chumbo desaguou assim que chegamos na cobertura, e limpou o céu de Roma em poucos minutos. A Nicola, queridíssima amiga inglesa, disse sorrindo: “And this is what I call “Good timing” 🙂 / Foto: Acervo pessoal desta, que vos escreve.

O terraço era amplo, e se abria para uma vista linda. Ficamos entre treze pessoas acomodados em mesas de vidro sobre um deque de madeira, sob uma tenso estrutura elegante que nos protegeu primeiro da chuva, depois do sol escaldante que se seguiu. Brindamos, fomos obrigados a discursar em três línguas cada um; aproveitamos o cocktail de sanduiche aberto, canapés, frutas e queijos, prosecco, conversando entre uma beliscada e outra.

Cortamos um bolo simples, joguei o buquê (quem pegou foi a Giovana), distribuímos as amêndoas confeitadas. Nos despedimos da maioria dos convidados; alguns deles ainda nos acompanharam até a Piazza Navona para um gelato, e depois até o Pantheon, onde se encontrava nosso hotel, com uma sacada charmosíssima. Lindo o hotel, lindo o Pantheon, lindo o noivo.

 

Antes dos drones: A vista da nossa sacada, na manhã do dia seguinte. / Foto: acervo pessoal desta, que vos escreve.

Antes dos drones: detalhe da vista para o Pantheon da sacada do hotel, na manhã do dia seguinte. / Foto: acervo pessoal desta, que vos escreve.

{****}

 

Tomamos o primeiro café da manhã depois de casados, partimos rápido para casa. Tínhamos marcado um almoço de despedida com os pais do Rodrigo; fizemos paella, fizemos as malas, brindamos com um belo espumante, e partimos para a estação de trem. Alguns quilômetros depois, no aeroporto nos esperava um avião para a Sicília.

Mas essa já é outra história!

 

Beijos e saudades,

A.”

∞♥∞

Com amor da sposina,

helga~Helga.

∞♥∞

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