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José de Abreu (viii) : O brasão de armas

Salve!

Eis mais um post sobre o Barão do Serro Largo. Mas agora, nada muito pesado: vamos falar de amenidades. Especificamente, vamos falar sobre o brasão de José de Abreu.

***

Digo amenidades, tendo em mente que este deveria ser um post simples, envolvendo pouca celeuma. Mas quase tudo que se refere ao Marechal Abreu vem imbuído de uma “História da história”, parafraseando o já mencionado múltiplas vezes, general Francisco de Paula Cidade.

Explico: a primeira menção que encontrei sobre este brasão vem do Nobiliário Sul Rio Grandense, de Mário Teixeira de Carvalho, publicado em 1937.[1] Não vem especificada a data da carta de brasão de armas, apenas menciona-se que

“Foram-lhe concedidas as armas dos Abreus: Em campo de vermelho cinco cotos de águia de ouro, postos em aspa. Por diferença, uma brica de ouro com um trifólio de sua cor. Timbre: o coto das armas. Elmo de prata aberto e guarnecido de ouro. Paquife do metal e cores das armas.”

… tudo isso após mencionar o título de barão, recebido em 12 de outubro de 1825. Das fontes apontadas no nobiliário, à página 299, duas poderiam conter a informação original, e são elas:

 

1) O Dicionário Enciclopédico do Rio Grande do Sul – 1º fascículo, Vol. 1, de Aurélio Porto, publicada no ano anterior, em julho de 1936.[2] Esta é uma edição relativamente rara, a qual eu adoraria ter em mãos, contendo páginas dedicadas não só a José de Abreu, mas também ao filho primogênito Cláudio José de Abreu, que é também meu ancestral direto. Por muita sorte, uma página deste volume encontra-se fotografada e legível, publicada por um vendedor que oferece este fascículo em bom estado, embora incompleto. Na página 34, encontra-se estampado o escudo que procuramos.
Êi-lo:

O brasão, ilustrado no volume acima citado. Não foi ainda possível saber se o mesmo volume traz também a descrição do brasão, e se faz menção à carta de brasão de armas. A visibilidade não é das melhores, mas dentro do campo do escudo, vejo apenas os cotos de águia (e talvez, uma brica)

2) Os artigos sobre o Marechal Abreu publicados no Jornal do Comércio, em 1934, escritos por Egon Prates.[3][4] Ali não se encontra menção sobre o brasão. A propósito, Egon Prates – cujo nome por extenso era João Egon d’Abreu Prates da Cunha Pinto – era neto de Cláudio José de Abreu e sua esposa Réa-Silvia Gomes de Abreu, pertencendo ao ramo dos Abreu Prates (assim como uma bisavó desta, que vos escreve). Fez um trabalho minucioso e bem embasado, embora não completamente isento de enganos, sobre o Barão do Serro Largo, que foi seu bisavô. É surpreendente que Egon Prates Pinto não conhecesse o brasão do seu, do nosso avoengo, pois tinha enorme gosto pela heráldica, e até 1936, segundo Francisco de Paula Cidade, era detentor da carta de nobreza do barão,[5] e portanto encarregado da salvaguarda deste documento, que já naquela época fora emitido havia mais de um século. Egon Prates  Pinto era tão conhecedor da heráldica que publicou, em suplementos da antiga Revista da Semana, um conjunto de brasões iluminados (incluindo biografias dos portadores e as datas das cartas de brasão de armas), e o conjunto desta obra chamou-se o Armorial Brasileiro (Brasil Colônia).

 

Voltando ao Nobiliário Sul-Riograndense, este traz a seguinte representação do brasão:

Ilustração do brasão contida no Nobiliário Sul Rio Grandense. O brasão correspondente seria: de vermelho, cinco cotos de águia de ouro postos em aspa. A brica de ouro com trifólio foi omitida, incorrendo em erro na representação.

 

A representação acima não corresponde à descrição do brasão contida no mesmo livro. Walter Spalding, em Os Construtores do Rio Grande do Sul, Vol.II,[6] parece ter sido o primeiro a publicar nota sobre essa incoerência, notando a falta da diferença na representação do brasão.

***

Para os que gostam da coisa toda bem tecnicalizada, como eu…

A brasonaria tem todo um vocabulário próprio, sendo que o brasão propriamente dito é a “fórmula”, a descrição da imagem do escudo, e à sua ilustração heráldica também pode-se chamar iluminura. Assim, a frase “Em campo de vermelho cinco cotos de águia de ouro, postos em aspa. Por diferença, uma brica de ouro com um trifólio de sua cor.” é o brasão, significando:

Em campo de vermelho :sobre um fundo vermelho
cinco cotos de águia :cinco asas de águia
de ouro :de cor dourada
postos em aspas :dispostas formando um X.

 

Até aqui, este é o brasão original do Abreu chefe, a quem ele primeiro foi concedido.

 

O escudo de armas de Abreu (chefe) é muito antigo e encontra-se representado em vários livros. Mas nenhum deles me parece mais lindamente iluminado que o Livro da Perfeiçam das Armas, de Antonio Godinho, cerca de 1530 (vide imagem 34). Este NÃO pertence a José de Abreu. Como já foi explicado em outro post deste mesmo blog – brasões não pertencem a sobrenomes, e sim a linhagens.

 

E a brica com trifólio? A brica é justamente a diferença do brasão de José de Abreu, que o torna unicamente seu, é um elemento heráldico que pode ser descrito como um quarto do cantão chefe direito, localizado no canto superior esquerdo do escudo. O cantão tem um nono da área do escudo, medindo um terço da largura e da altura. Trocando em miúdos, a brica é um retângulo medindo cerca de um sexto da largura e altura totais do escudo, localizada no canto superior esquerdo do campo do brasão (desconsiderando aqui a lateralidade invertida da heráldica, a fim de descomplicar este post). No próprio Armorial Brasileiro, já referido, encontram-se exemplos deste elemento:

 

O brasão de Félix Pereira da Piedade em O Armorial Brasileiro, de Egon Prates Pinto. Iluminura de Luiz Gomes Loureiro. Da extinta Revista da Semana, Hemeroteca Digital Brasileira. A brica com o trifólio foram destacados por esta, que vos escreve.

 

Já o trifólio é uma carga heráldica (uma figura) abstrata, são três folhas unidas ao centro, em geral apontando para cima, e o termo “de sua cor” quer dizer da cor que seria encontrada ao natural, ou seja, verde.

 

O trifólio ilustrado em Dibujo Heraldico, um blog ultra informativo e didático – autoria e desenho do heraldista Xavier Garcia.

 

Os elementos descritos a partir do timbre, incluindo elmo e paquife, são ornamentos heráldicos, e sua representação não é obrigatória. Indispensáveis para a representação correta do brasão são apenas os elementos que estão dentro do campo, onde sempre estão as chamadas “diferenças” ou brisuras, que são uma tentativa de individualização do brasão, especialmente entre portadores de brasões que pertencem a um mesmo ramo familiar.

***

Sobre a prática de incluir a brica em brasões concendidos no Brasil, recomendo a leitura deste post, no blog Arte Heráldica, de Eduardo Henriques d’Castro:

 

“A casa deste “desrespeito”, pelo menos no Brasil, nos é elucidada pelo Professor Baroni Santos (6), alegando que  era costume dos reis de armas do Cartório de Nobreza e Fidalguia fazer a elaboração de brasões conforme a homonímia sem verificar se a pessoa que receberia as armas em questão era ou não pertencendo à família armigerada, sendo tomado o cuidado de acrescentar-se uma diferença para não incorrer na usurpação.”

 

LEITURA RECOMENDADA : BRICAS E DIFERENÇAS

Este parecer faz o mais perfeito sentido, considerando-se que Abreu era o único sobrenome usado pelo marechal, e que a comprovação de ter direito ao uso do brasão dos Abreu por descendência seria muito improvável – vide este post.

Ainda em Arte Heráldica, outro post esclarece sobre as condições de hereditariedade de um brasão:

“Os títulos e brasões ad personam são aqueles que pertenciam à cargos administrativos do império e seus títulos de nobreza que não eram “de jure e  herdade”, por exemplo, os títulos comprados da nobreza togada do Brasil ou a nobreza adquirida através de postos de milícia portugueses e brasileiros, estes não podiam ser passados aos descendentes. Assim, só eram possuidores de brasões e títulos hereditários as famílias nobres do que hoje se considera como nobreza histórica ou constituíram regime de morgado.”

 

***

Restam, assim, duas questões:

1) Onde está a carta de brasão de armas de José de Abreu? Se algum leitor hipotético tem acesso ao Dicionário Enciclopédico do Rio Grande do Sul, ou fonte ainda melhor, por favor e obrigada, mande notícia. Seria de se esperar que alguma fonte secundária pudesse apontar a fonte original do brasão. A busca por esta informação é particularmente intrigante, dada a triste história de Possidônio Carneiro da Fonseca Costa, o primeiro Rei de Armas do Brasil.

 

2) Como seria a iluminura correta do brasão do Marechal José de Abreu, incluindo a diferença da brica com trifólio? Eis aqui mais um, ou mais três oferecimentos desta, que vos escreve:

 

Brasão de José de Abreu: escudo raso. (De vermelho, cinco cotos de águia de ouro postos em aspa. Por diferença, uma brica ouro com um trifólio de sua cor). A brica com trifólio está no canto superior esquerdo (em heráldica, dito cantão chefe direito). Uma ilustração desta, que vos escreve, com inkscape.

 

Brasão de José de Abreu: Realização heráldica completa, com ornamentos: elmo, paquife e timbre. Mais uma ilustração desta, que vos escreve, com inkscape.

 

O brasão de José de Abreu : realização heráldica mais-que-completa, incorporada a coroa de barão e as insígnias de Comendador da Ordem de Avis e Cavaleiro da Ordem do Cruzeiro. Ainda mais uma ilustração desta, que vos escreve, com inkscape.

A confecção destas “iluminuras” não seria possível, se não pelo trabalho dos heraldistas que listo a seguir, cujos trabalhos encontram-se na Wikimedia Commons, podendo incluir elementos que foram usados ou adaptados de:

 

***

Feita mais esta retificação sobre o Barão do Serro Largo, aqui despede-se por ora esta, que vos escreve

helga

~Helga.

 



Fontes
[1] CARVALHO, Mário Teixeira de. Nobiliário Sul Riograndense (1937), 2ª ed. Porto Alegre: Renascença : Edigal, 2011.
[2] PORTO, Aurélio.Dicionário Enciclopédico do Rio Grande do Sul – 1º fascículo, Vol. 1. Porto Alegre: Minuano, 1936.
[3] PINTO, João Egon de Abreu Prates da Cunha. O Marechal de Campo José de Abreu : Barão de Serro Largo : Notas extraídas do trabalho em preparo “Os Esquecidos da História”, I. Rio de Janeiro: Jornal do Comércio. 27 de maio de 1934, p. 6.
[4] PINTO, João Egon de Abreu Prates da Cunha. O Marechal de Campo José de Abreu : Barão de Serro Largo : Notas extraídas do trabalho em preparo “Os Esquecidos da História”, II. Rio de Janeiro: Jornal do Comércio. 10 de junho de 1934, p. 8.
[5] CIDADE, Francisco de Paula. Dois Ensaios de História. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1966.
[6] SPALDING, Walter. Construtores do Rio Grande, II Volume. Porto Alegre: Livraria Sulina Editora, 1969.

Terceira versão de um retrato, ca. 1825: 1937 & 2017

Salve!

Como publiquei anteriormente, em longa explanação sobre o retrato [misterioso] do Marechal José de Abreu, Barão do Serro Largo, vim a colorizar em retrato em bico-de-pena de 1937, ilustrado por João Faria Viana e publicado no Nobiliário Sul-Riograndense, de Mário Teixeira de Carvalho.

 

O retrato a óleo, parte do acervo do Museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Faltam pixels, mas não cores.

 

O retrato em bico de pena de João Faria Viana, 1937. Faltam cores, mas não pixels.

 

Não havia porque não dar ao segundo retrato as cores do primeiro. Foi o que fiz:

 

A fusão dos dois retratos acima – que saiu melhor que a encomenda – é um humilde oferecimento desta, que vos escreve.

 

Assim, sem mais delongas, me despeço

 

helga

~Helga.

Em destaque, versões: original, a óleo, ca. 1825 (?); em bico-de-pena, 1937; e photoshop, 2017.

José de Abreu (iv) : O retrato pictórico

[misterioso]

Salve!

Circula pela internet, com pouquíssimos pixels e incontáveis reproduções, uma imagem que retrata o famoso José de Abreu:

A reprodução do retrato de José de Abreu, como encontra-se na rede mundial de telecomputadores. Realmente faltou a ferramenta “enhance” (vide a cena de Blade Runner – lembrando que faltam apenas dois anos para 2019 :-).

 

O retrato, tradicionalmente atribuído a José de Abreu. Esta versão me foi enviada pela Comunicação Social do 6º RCB de Alegrete, sendo existente neste regimento, chamado “Regimento José de Abreu”. Note-se que a imagem parece ter sido cortada na extremidade inferior. Ao que parece até o momento, esta é uma reprodução de um original, sobre o qual ainda procuro desvendar mais.

 

Ao que parece, foi baseado na imagem acima que, em 1937, João Faria Viana representou o Barão do Serro Largo na reconhecida obra de Mário Teixeira de Carvalho, o Nobiliário Sul-Riograndense, como vemos:

No Museu Júlio de Castilhos encontra-se ainda outro retrato – sobre este comentou Francisco de Paula Cidade, em Dois ensaios de História. A imagem tem semelhanças e diferenças em comparação às imagens anteriores.

Sobre o primeiro retrato, todas as informações ainda estou por descobrir (exceto que não encontra-se no Museu Julio  de Castilhos). Mas a imagem em questão, mesmo vista pela tela do computador e em baixa resolução, oferece várias pistas no figurino e na numismática que vestem o sujeito retratado. Este último campo de estudos ocupa-se de moedas e símbolos, e duas ciências de que derivam dela serão aqui de particular interesse: a falerística e a medalhística. (Nota: atualização em 15 de junho de 1017: uma versão com mais qualidade já está incluída neste post e no Repositório. A imagem foi gentilmente enviada pela Comunicação Social do Regimento José de abreu, na voz do Sargento Hiliunes).

– A medalhística…

Estuda medalhas, é claro. Neste caso duas delas aparecem no retrato:

“Perdoai a pouca resolução”

Estas estão claramente representadas no busto de José de Abreu que existe no 6º Batalhão de Cavalaria de Alegrete, como já postado previamente aqui:

iuhasiuashuiha

Êi-la novamente: “Busto do Barão no 6º Regimento de Cavalaria de Alegrete. Foto: Juner Vieira/ especial / cp, reproduzida da mesma notícia.” Nota: A Comunicação Social do 6º Regimento de Cavalaria Blindada, o “Regimento José de Abreu”, de Alegrete, na voz do gentilíssimo Sargento Hiliunes, teve a bondade de informar que este busto foi inaugurado em 21 de outubro de 1957, e produzido pela antiga metalúrgica Eberle.

 

 

– Em detalhe, as medalhas – Segundo o mesmo Sargento Hiliunes, não é possível, pessoalmente, identificar que medalhas são estas. Certo é que estão feitas à semelhança do retrato acima, existente no mesmo Regimento.

Supunha que o Regimento do qual José de Abreu é patrono soubesse exatamente que medalhas são estas. Mas em contato com o Regimento José de Abreu, esta ainda é uma questão em aberto. Ofereço aqui uma alternativa:

Tendo em mente que os momentos mais notáveis de José de Abreu deram-se entre os anos de 1811 e 1820, a identificação destas medalhas – mesmo sem poder ver bem – torna-se um pouco mais embasada, ainda que seja, para mim, um jogo de adivinhação.

A medalha da direita é, aparentemente, esta:

COSTA, Sérgio Paulo Muniz. “A construção da fronteira sul”, p.284. Reproduzido da obra de Jonas de Morais Correia Filho, “Símbolos Nacionais na Independência” (Rio de Janeiro, 1994).

Sabe-se que a medalha está em verde e amarelo, e uma descrição perfeitamente detalhada encontra-se aqui – “As Medalhas e Ordens Militares e Civis do Brasil:

MEDALHA DE CAMPANHA CISPLATINA – 1816-1821

Destinada a distinguir os componentes do Exército e esquadra sob o comando em chefe do Ten. Gal. Visconde de Laguna. Foi criada pelo Decreto de 31-I-1823.

Característica. A medalha tinha a forma de cruz, de ouro para os oficiais generais, de prata para os demais oficiais e de estanho ou metal branco para os praças de pré.

No anverso, o centro era de esmalte azul, e nele se achava gravado um ramo de oliveira posto sobre o Serro de Montevidéu, circundado por uma coroa circular, onde havia a inscrição MONTEVIDEO, em cima, e, um ramo de louro em baixo.

No reverso, o centro era de esmalte verde com a legenda PETRUS PRIMUS, BRASILIAE IMPERATOR, DEDIT, circundado por um ramo de louro.

A cruz era encimada por um dragão alado que representa a Casa de Bragança. O número de anos de campanha era marcado nos braços da cruz, da seguinte forma: um, era inscrito no braço superior da cruz; dois, era inscrito nos braços laterais; três, no superior e no braços laterais; quatro, nos quatro braços; cinco, nos quatro lados do anverso e no superior do reverso e seis anos nos quatro lados do anverso e nos laterais do reverso.

A medalha era usada do lado esquerdo do peito, pendente de fita verde, orlada de amarelo, com passador em metal correspondente ao da cruz, com a legenda MDCCCXXII.”

E já que estamos aqui…

A Cruz da Cisplatina, colorizada por esta, que vos escreve. Tentei, decerto em vão, não errar.

Da medalha da esquerda ainda não encontrei nenhuma imagem que pudesse corresponder. Minha melhor ideia é que seja a medalha assim descrita em Academia de História Militar Terrestre do Brasil:

“(Omitida a gravura)

Medalha das Campanhas de 1816 e 1820 contra Artigas. Foi criada por decreto [sic] de 15 de setembro de 1822, por D. Pedro I, para premiar os militares que tomaram parte das tropas ao comando do Marques de Alegrete e depois do Conde da Figueira que venceram Artigas respectivamente em Catalan em 1816, e em Taquarembó, em 1820. A medalha consiste numa Cruz de Malta maçanetada, tendo ao centro a medalha conferida ao Exército Pacificador da Banda Oriental.

Ela figura em preto e branco em O Exército e a medalhística, p.56″

Primeiro vale dizer que as batalhas condizem com o histórico do Barão do Sêrro Largo, que àquelas alturas ainda não era um oficial general, mas sim tenente-coronel, durante a batalha do Catalão, e brigadeiro, na batalha de Taquarembó (na qual o seu desempenho, aliás, valeu-lhe a promoção a marechal-de-campo graduado, em 1º de março de 1820).

Interpretando a descrição, “Cruz de Malta maçanetada, tendo ao centro a medalha conferida ao Exército Pacificador da Banda Oriental”, onde a Cruz de Malta é a  forma reproduzida abaixo, e “maçanetada” significa neste contexto”ao redor”, falta apenas imaginar inserida nela a medalha dada aos pacificadores da Banda Oriental.

Cruz de Malta, Wikimedia Commons

Mais uma vez encontrei somente a descrição, na mesma fonte anterior:

“(Omitida a gravura)

Medalha de Campanha do Exército Pacificador da Banda Oriental – 1812:

Foi criado como escudo de distinção do Exército Pacificador da Banda Oriental, por decreto [sic] de 20 de janeiro de 1815, do Príncipe Regente D. João. Era para ser usada no braço direito. As dos oficiais generais eram de ouro. As dos demais oficiais, cadetes e empregados civis eram de prata. As das praças eram de estanho. Decreto [sic] de 25 de setembro de 1822 substituiu os escudos, por medalhas e permitiu que elas fossem usadas pendentes do pescoço por uma fita amarela pelos oficiais generais. Para os demais ela era presa na farda no lado esquerdo, com uma fita amarela. Os feridos em combate recebiam a medalha perfurada, simbolizando uma cicatriz de combate. (Omitida). Ela consta em preto e branco da obra O Exército e a medalhística p. 26).”

Não há, no meu entender, nenhuma discrepância entre as descrições acima e a medalha cor de prata, emoldurada por uma cruz de malta e suspensa por fita amarela do lado esquerdo da farda, como retratado na primeira imagem deste humilde post.

Mas vamos ver ainda as demais insígnias na imagem. Para isso, vamos recorrer à

falerística.

E poderemos facilmente identificar as duas condecorações restantes no retrato, mesmo que uma delas encontre-se parcialmente excluída da reprodução.

Segundo Aurélio Porto, em seu Dicionário enciclopédico do Rio Grande do Sul, José de Abreu

“Recebeu mais a placa e cruz da ordem de São Bento de Aviz, a de cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro, e a efetivação no Comando das Armas da Província, e a de marechal-de-campo em 12 de outubro de 1824.”

A insígnia de São Bento de Aviz está presente, como se afere nesta imagem, extraída da compilação de Artidório Augusto Xavier Pinheiro:

“A placa e a cruz” estão associadas ao grau de Comendador, o terceiro de 5 graus desta ordem. “Insígnia: cruz latina verde, flordelizada.” A cruz com fita é sem dúvida a condecoração usada no pescoço do retratado – vide:

Um zoom do objeto em questão no retrato de que tratamos aqui – para os que tem preguiça de rolar até lá em cima.

A insígnia de Cavaleiro da a Imperial Ordem do Cruzeiro, criada em 1º de dezembro de 1822 por Dom Pedro I, seria usada por José de Abreu – Cavaleiro era o menor dos 4 graus. Este poderia muito bem ser o adereço que se encontra logo abaixo das medalhas.

Com muito boa vontade, vemos o topo de uma ponta bifurcada, pendente de uma coroa.

Enfim, até agora, nas medalhas e condecorações, não há nenhuma contradição entre o retrato e a trajetória do Barão do Serro Largo. Falta apenas verificar agora a farda: e no processo de escrever este post descobri que há, inclusive, um ramo do conhecimento denominado

uniformologia.

Sem entrar em complexas terminologias e definições, precisamos primeiro determinar a época do retrato.

Como vimos, entre as medalhas e insígnias que estão na pintura, a mais recente será a primeira a ser tratada neste post, criada em 1º de dezembro de 1823. Nesta data o Barão do Serro Largo era já marechal-de-campo, graduado em 1820 e efetivado em 1824. Este foi o seu mais alto posto. A fim de confirmar a adequação histórica do uniforme no retrato, é ferramenta essencial a obra de Gustavo Barroso – Uniformes do Exército Brasileiro, 1730-1922.

À página 89 deste volume, está o número da figura que procuro. São de particular interesse os figurinos B e E.

Êi-los:

De todos esses uniformes, o que melhor se associa ao que se encontra no retrato é o penúltimo da esquerda para a direita, ou seja, a estampa E. Corresponde ao pequeno uniforme de um marechal-de-campo, em 1823. Aquarela de José Wasth Rodrigues, 1922.

Enhance! O “pequeno uniforme” parece equivaler ao que atualmente se chama uniforme de serviço, segundo Lagos Militar.

Nota-se, por pouco, a ponta de uma franja na dragona do ombro esquerdo. A frente é com botões dourados e sem bordados, que ficam restritos à gola.

Até aqui, sem surpresas, nada fora do esperado. Este retrato, original ou póstumo, está feito para refletir as condecorações do Barão.

Agora, sobre o retrato do Museu Julio de Castilhos – em primeiro lugar, aqui está:

 

Retrato de José de Abreu. Reprodução gentilmente cedida pelo Museu Julio de Castilhos, Porto Alegre. Autor desconhecido, assinatura não reconhecida. Crayon sobre papel, 50x39cm. Item do acervo Nº 143, recebido como doação do Quartel General do III Exército, em 1949.

Retrato de José de Abreu. Reprodução gentilmente cedida pelo Museu Julio de Castilhos, Porto Alegre. Autor desconhecido, assinatura não reconhecida. Crayon sobre papel, 50x39cm. Item do acervo Nº 143, recebido como doação do Quartel General do III Exército, em 1949. A insígnia é a da Ordem do Cruzeiro, mas o uniforme não parece o de um oficial general daquele tempo.

Em segundo, cabe dizer que as dúvidas levantadas sobre a correta atribuição na obra de Cidade (Dois ensaios de história) são de cunho muito subjetivo, tratando-se especificamente da sua aparência:

“Além disso, a fisionomia não parece ser a de um caboclo, cruza de branco com índio, conforme a mestiçagem que lhe atribuem vários dos que com ele privaram, um dos quais o aponta como sendo um dos maiores conhecedores da língua indígena.”

Infelizmente, neste aspecto, foi o autor de Dois Ensaios de História induzido ao erro pelo próprio Barão do Serro Largo, pelas suas declarações às vezes dúbias, os às vezes contraditórias, ao menos na superficialidade das aparências, sobre si mesmo. Mas a afirmação de que Abreu era de origem indígena, como ainda cabe esmiuçar em outro momento, simplesmente não procede de nenhuma fonte primária.

Por fim, sobre o retrato em questão, diz Cidade:

“Há dúvidas sobre sua autenticidade, havendo mesmo quem diga que deve ser um dos membros da família do Barão.”

Sobre a possível atribuição deste retrato a um dos familiares do Marechal, nenhum dos seus quatro filhos (eram eles: Cláudio José de Abreu; José Inácio de Abreu; Manoel José de Abreu; Cândido José de Abreu), nem seu irmão (Romão de Souza e Abreu) atingiram o mesmo reconhecimento, ou sequer reconhecimento comparável, ao deste grande vulto da história da formação da fronteira Sul do Brasil. Certamente teriam menos medalhas e condecorações, e não chegariam a usar uma farda de oficial general, como a do pai. Além disso, como declarou o próprio Cidade, os filhos de José de Abreu pretendiam afiliar-se à Ordem de Cristo, cujas insígnias eram estas:

 

Já a minha hesitação sobre a atribuição correta do retrato do Museu Julio de Castilhos tem a ver justamente com os tópicos aqui tratados: a condecoração e o uniforme. E, em se tratando de concluir qual desses retratos seria o predecessor dos demais, falta ainda descobrir mais sobre o primeiro aqui mostrado.

 

Sem mais até o momento, despeço-me aqui.

Esta, que vos escreve

helga

~Helga.

Em destaque: reprodução parcial do retrato do Barão por João Faria Viana, colorizado por esta, que vos escreve. A figura inteira está publicada neste post, em Colírio.

Principais fontes bibliográficas:

BARROSO, Gustavo. Uniformes do Exército Brasileiro, 1730-1922. Paris: Ferroud, 1922.

CARVALHO, Mário Teixeira de. Nobiliário Sul-Riograndense. Porto Alegre: Renascença: Edigal, 2011.

COSTA, Sérgio Paulo Muniz. A construção da fronteira sul. Porto Alegre: IHGRGS, 2015.

CIDADE, Francisco de Paula. Dois Ensaios de História. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1966.

PINHEIRO, Artidório Augusto Xavier. Organisação das Ordens Honoríficas do Império do Brazil. São Paulo: Jorge Seckler & C., 1884.

PORTO, Aurélio. Dicionário enciclopédico do Rio Grande do Sul, 1º Vol. Porto Alegre: Universo, 1936.

VASCONCELOS, Rodolfo Smith de & Vasconcelos, Jaime Smith de. Arquivo Nobiliárquico Brasileiro. Lausana: La Concorde, 1918.

Compilação inacabada de Nomes curiosos, ∞ H ∞

Salve!

Esta é a oitava de uma série de postagens em Extra!, dedicadas a desenterrar alguns nomes encontrados no Garimpo. Navegue pela página principal – Nomes curiosos de A a Z, ou use a barra de navegação no menu lateral.

Mas primeiro, inicio com este

∞ Aviso aos navegantes ∞

Eu, tu, eles jamais pretendeu ofender. É possível que um nome que pertença a algum ente muito querido de algum leitor tenha-me parecido divertido por um ou outro motivo. Alguns nomes são descritos com uma pitada de bom-humor, outros com alguma dose de estupefação que a nada se deve, senão à minha ignorância : )

Por favor, respirem, relaxem e relevem!

~ Grata pela compreensão

 • • • ♦ • • • 

Para ⇑ ∞ G ∞ ⇑

 • • • ♦ • • • 

∞ H ∞

∞ Heluza ∞
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Link – clique aqui

Porto Alegre, 1912.

∞ Helvina ∞
Screen Shot 2016-05-15 at 18.38.17

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Belém Velho, Porto Alegre, 1875.

∞ Hilário ∞
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Porto Alegre, 1914.
Espero que não seja só eu quem não consegue evitar de pensar neste emoji quando vê o nome:

MORRI!

MORRI!

∞ Homero ∞
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Link – clique aqui

Porto Alegre, 1914. Impossível não pensar em uma odisséia.

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Ilustração para a Odisséia de Homero. Encontrada em Livros-Digitais.com.

∞ Honor ∞
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Link – clique aqui

Porto Alegre, 1895.

Encontrado sem muita frequência, Honor aparece também em nomes compostos, às vezes hifenado, como por exemplo em Cláudio-Honor (ou Claudionor, simplesmesnte). O Honor deste registro de casamento tem como sobrenome um nome que é também próprio: Camilo.

∞ Horácio ∞

 

Screen Shot 2016-05-15 at 20.11.37

Link – clique aqui

Quem mais pensou, levanta a mão:

jiojioio

O Horácio da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa. 
Imagem encontrada em Rika.com.br.
∞ Hormira ∞
Link - clique aqui

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Hormira seja talvez o mais incomum dos nomes terminados em -mira do meu repertório, como Belmira, Palmira, Zulmira e Ramira, entre outros.
Porto Alegre, 1913.

∞ Hygino ∞
Link - clique aqui

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São Borja, 1873.

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Para ⇓ ∞ I ∞ ⇓

• • • ♦ • • •

E para encerrar, um

∞ Segundo aviso aos navegantes ∞

As compilações estão em constante crescimento e sujeitas a alterações sem aviso prévio.

— ∞ —

monogramas

Att,

helga~Helga.

Compilação inacabada de Nomes curiosos, ∞ G ∞

Salve!

Esta é a sétima de uma série de postagens em Extra!, dedicadas a desenterrar alguns nomes encontrados no Garimpo. Navegue pela página principal – Nomes curiosos de A a Z, ou use a barra de navegação no menu lateral.

Mas primeiro, inicio com este

∞ Aviso aos navegantes ∞

Eu, tu, eles jamais pretendeu ofender. É possível que um nome que pertença a algum ente muito querido de algum leitor tenha-me parecido divertido por um ou outro motivo. Alguns nomes são descritos com uma pitada de bom-humor, outros com alguma dose de estupefação que a nada se deve, senão à minha ignorância : )

Por favor, respirem, relaxem e relevem!

~ Grata pela compreensão

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Para ⇑ ∞ F ∞ ⇑

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∞ G ∞

∞ Galdino ∞
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Casou-se em Porto Alegre, 1896.

∞ Garibaldi ∞
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Com altíssima probabilidade de ter-se inspirado no célebre Giuseppe Garibaldi.
São Borja, 1877.

Giuseppe Garibaldi, 1866. Wikimedia Commons.

∞ Gasparina ∞
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Feminino de Gaspar, pouco utilizado. Porto Alegre, 1912.

∞ Gersumina ∞
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Raro! Belém Velho, Porto Alegre, 1859.

∞ Gaudêncio ∞
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Logo pensei em Gaudêncio Sete Luas. Encruzilhada do Sul, 1884.

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Cantos de Gaudêncio 7 Luas. Via MercadoLivre.com.br.

∞ Godofredo ∞
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Acho que nunca foi um nome bem popular, mas está cada vez mais em desuso. Este
Godofredo Casou-se em Porto Alegre, em 1898.

∞ Godinho ∞
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Um nome quase esquecido. Porto Alegre, 1876.

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Para ⇓ ∞ H ∞ ⇓

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E para encerrar, um

∞ Segundo aviso aos navegantes ∞

As compilações estão em constante crescimento e sujeitas a alterações sem aviso prévio.

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monogramas

Att,

helga~Helga.