Salve!

Por vezes, entre documentos oficiais sem informações mais aprofundadas sobre algum antepassado, surge alguma notícia surpreendente, que nos faz poder mergulhar por um momento em alguma realidade perdida no tempo. Esses são achados preciosos, que nos permitem vislumbrar melhor quem foram eles, o que fizeram, porque foram parar nos noticiários. (Para uma reflexão sobre como lidar com eventos vergonhosos, leia-se:
Eu sei o que vocês fizeram no século retrasado).

Nesta edição de Extra!, deixo a reprodução de uma notícia de assassinato em família no Estado de São Paulo, em 9 de abril de 1893. Foi reproduzida no jornal A Federação, de Porto Alegre, 10 dias após a veiculação, enviada por telégrafo.

Vários personagens são descritos em suas características físicas e emocionais, sendo aos poucos inseridos na cena do crime. Os detalhes do ocorrido são revelados, fazendo a notícia ganhar vida e aprofundando a perplexidade causada pelo inexplicável absurdo do delito.

Está aqui transcrita a notícia, extraída da Hemeroteca Digital Brasileira:

Assassinato

A seguinte notícia, extraída do Estado de São Paulo, de 9 do corrente, narra um horroroso crime havido ultimamente na cidade onde esta folha se publica, e é confirmação ampliada da comunicação telegráfica que em tempo recebemos referente ao sucesso.

Diz na folha paulista:

“- Na Rua dos Imigrantes, 14, bairro do Bom Retiro, deu-se ontem um crime rodeado de circunstâncias altamente comoventes. O alemão Carl John Frederick assassinou sua mulher, Albertina Mickler Jaffre, de cincoenta e sete anos de idade, mais ou menos, também alemã, vibrando-lhe no crânio cinco golpes de machado.

O motivo do crime não podia ser mais fútil: – Carl assassinou sua mulher porque, tendo-lhe recomendado que não pisasse nas plantações do quintal, ela respondera, em um tom um pouco áspero, que quem mandava em sua casa era ela !

Foi isto, ao menos, que ele declarou ao dr. 3º delegado num pequeno interrogatório a que aquela autoridade o sujeitou no próprio teatro do crime.

Estávamos presentes. Era em um pequena sala de jantar, mal mobiliada. Estendido de bruços na porta do quintal, via-se o cadáver, com o rosto completamente banhado em sangue ; o braço esquerdo em cima de uma bacia cheia de batatas ; o braço direito embaixo do corpo, retorcido em uma última contração; da cabeça, esmagada no parietal esquerdo, escorria ainda muito sangue que inundava o chão e as roupas da infeliz.

A um lado, chorando desesperadamente, estava uma moça loura, de 30 anos, mais ou menos. Era uma filha de Albertina.

O assassino, que parece ter 60 anos, e é de estatura baixa, magro, rosto enrugado, cabelos e suíças brancas, tinha a atitude calma e o olhar vago, sem manifestar a mais leve impressão de temor ou arrependimento. Não sabe falar o português. Para o interrogar, o dr. 3º delegado  serviu-se de um intérprete e fez apenas as perguntas essenciais.

Já os leitores sabem qual foi o motivo do crime.

Quanto ao mais, o assassino declarou que sempre teve questões com sua mulher e que não procurou fugir depois que a matara a machadadas, tendo ido entregar-se, por sua própria vontade, ao guarda Manoel José de Lacerda.

A filha de Albertina, que chorava desesperadamente ao lado do cadáver, também foi interrogada. Declarou apenas que o autor do crime tinha sido Carl Frederick. Era tal a agitação em que estava que não pode declarar mais nada, nem a autoridade insistiu em interrogá-la.

Também foram interrogados alguns vizinhos.

A parteira Antonia Drominguen, alemã, que mora na casa contígua, disse que Frederick, antes de se entregar à polícia, fôra à sua casa e lhe dissera com inteira tranqüilidade:

“- Acabo de matar minha mulher. Venha vê-la.”

Os outros vizinhos não fizeram declaração que valha a pena transcrever.

Por informações que obtivemos, sabe-se que Albertina era casada com Carl Frederick em segundas núpcias. Tivera do primeiro casamento cinco filhos, todos vivos, e um segundo.

Um de seus filhos, de nome Otto, chegou à casa no momento em que seu padrasto estava sendo interrogado. Não se imagina a dor que ele sentiu ao se deparar com o cadáver da sua velha mãe. Otto, que é um moço de fisionomia simpática e que goza de boa reputação, trabalha em uma casa de construção da Rua Episcopal.

Este crime, que se deu à uma hora da tarde, produziu grande impressão no bairro do Bom Retiro. À hora e meia, quando lá chegamos com dr. delegado e do dr. Galvão Bueno, que fez o auto do corpo de delito, havia ali já grande aglomeração na porta da casa de Carl Frederick e nas imediações.

Foi necessária intervenção da polícia para que a casa não fosse invadida pela onda de curiosos.

Carl e Albertina estavam casados há vinte anos e há dez que residiam no Brasil.

O assassino, ao que consta, há muito que manifesta sintomas de loucura.

A autópsia do cadáver será feita hoje, às 8 horas da manhã, no necrotério municipal.

– Sem mais notícia.

Att,

helga~Helga.

 

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