Salve!

Caixas de fotografias antigas sempre guardam algum tesouro. Foi somente em 2012 – e portanto, já bem grandinha – que pude descobrir a maravilhosa foto abaixo, enviada pelo meu saudoso pai. O verso da foto é tão precioso quanto, com um recadinho – ligeiramente insinuante, eu diria – para o namorado da terceira moça da esquerda para a direita, que era também o futuro marido, e foi também o meu avô super querido.

♥ Minha avó pronta para o Carnaval, em 1929 ♥
Erna(1929)

Endiabradas: as meninas formaram um mini bloco com o artifício simples de usar o mesmo acessório na cabeça. À primeiro vista alguém poderia se perguntar porque a estrela está sempre torta…? Mas com mais atenção, se percebe que as estrelas estão, na verdade, todas apontando para baixo – e, no ocultismo, este é um símbolo do submundo. As moças eram de família, mas afinal, era Carnaval! Foto: Irmãs Nilles e amigas, Porto Alegre, 1929 / Arquivo pessoal da Helga.

Achei que uma foto tão interessante merecia ser colorida. O difícil é livrar o pensamento deste tipo de imagem:

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A combinação de preto e metálico é super batida em se tratando do estereótipo de traje festivo feminino nos anos 20. Só faltaram uma piteira e um comprido colar de pérolas… vocês sabem do que estou falando! Encontrado em NotOnTheHighStreet.com.

 

Mas isso seria um passo em falso, é claro. A década de 20,* também chamada de “anos loucos”, foi um período de relativa paz e prosperidade, na primeira fase do entreguerras e anterior à Grande Depressão. As fotos eram, sim, em preto e branco, mas os exemplos sobreviventes de vestidos e a imprensa da época mostram que ela foi (ou pelo menos, em sua encarnação mais luxuosa, pretendeu ser) bastante colorida:

 

 

Então chegamos aos finalmente: hora de dar cor ao momento eternizado no Carnaval portoalegrense de 1929. Talvez fosse tudo bem mais sóbrio do que na minha imaginação, mas preferi apostar num conjunto de cores sortidas e um fundo vibrante como o espírito da época. Recomendo que deixem que os olhos passeiem um pouco pela imagem, levados pelos olhos serenos e as ondas revoltas dos cabelos dessas quatro moças.

 

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As meninas no baile de Carnaval: ao centro, Irene Nilles e Erna Nilles; nos cantos esquerdo e direito, duas moças cujas identidades ainda não descobri. Foto: Irmãs Nilles e amigas, Porto Alegre, 1929 / Arquivo pessoal da Helga. Colorizada por Helga.

As cores dos cabelos e dos olhos, aliás, vieram das memórias de uma sobrinha das irmãs Nilles, que são as moças do meio. Sobre as quatro irmãs (sendo que as duas primeiras não estão na foto), filhas de Theodoro Nilles e Henriqueta Eilert, ela disse:

“A minha tia Irma, que era a tia mais velha, ela tinha os olhos azuis, e o cabelo castanho escuro. Depois vinha a minha mãe, com o cabelo e os olhos escuros. A minha mãe foi a única que teve os olhos escuros. Vocês vão ver nas fotografias. A Wilma era minha mãe, a segunda. Aí vinha a tia Erna. Olho azul e o cabelo puxando mais para o loiro. E a tia Irene que era mais moça que tinha os olhos cor de violeta e os cabelos cor de fogo. Era a única diferente, a minha tia mais moça.”

∞ ♥ ∞

E então ao reler este trecho da transcrição desta entrevista de 2012, me deu um estalo: eu olhei mais uma vez para os cabelos da Irene. Cabelos vermelhos teriam parecido muito mais escuros do que eram em uma foto p&b daquela época. Isso se deveria à película ortocromática da fotografia, assim descrita na Wikipedia (livremente traduzido por mim):

A película ortocromática provou-se problemática para o cinema, fazendo céus rosados parecerem nebulosos, cabelos loiros parecerem apagados, olhos azuis praticamente brancos, e lábios vermelhos praticamente pretos.

Este tipo de película foi amplamente utilizado até 1926 e sua produção só foi interrompida pela Kodak em 1930. Porto Alegre não estava exatamente no epicentro das novas tendências e é bem provável que ali, em 1929, uma fotografia corriqueira ainda não dispusesse da película pancromática, cuja fidelidade de representação das cores teria sido maior.

Olhei mais uma vez para a fotografia orginal. Olhei bem para as duas figuras centrais, com os olhos parecendo muito claros, os cabelos cor de fogo da Irene parecendo escuros, e as roupas escuras parecendo ser feitas do mesmo tecido e, com simplicidade, feitas em casa, talvez especialmente para a ocasião. E me ocorreu que, talvez, essas meninas endiabradas quiseram combinar também as cores dos vestidos. E elas escolheram, eu sei, vestir encarnado.

 Foto: Irmãs Nilles e amigas, Porto Alegre, 1929 / Arquivo pessoal da Helga.

Foto: Irmãs Nilles e amigas, Porto Alegre, 1929 / Arquivo pessoal da Helga. Colorizada por Helga.

E assim, me dei por satisfeita.

Att,

helga~Helga.

∞ ♥ ∞

*Nota: Eu nasci no século XX e por isso chamo a década entre 1920 e 1929 apenas de “anos 20”. Mas é claro que em cinco anos estaremos na década de 20 do século XXI. Já posso ouvir minha filhinha de dois anos dizendo: “Eu cresci nos anos 20!”. E eu no século XX…! Quando ainda usávamos algarismos romanos.


∞ ♥ ∞

3 Comments Colorização de uma foto de família, 1929

  1. Vanessa

    Muito legal o teu blog. Ultimamente tenho pensado em pesquisar sobre meus antepassados. Tuas buscas são um exemplo!

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    1. helga

      Vai lá Vanessa, pesquisa! A mais longa viagem começa com um único passo… É um prazer insubstituível, uma das experiências mais enriquecedoras. Obrigada pela visita, seja sempre bem-vinda e um abraço!
      ~ Helga

      Reply
      1. Vanessa

        Oi Helga!
        Comecei a pesquisar certidões de casamento, nascimento, óbito… já descobri os nomes dos meus bisavós, pais do avô paterno. Está sendo muito legal, cada vez dá vontade de saber mais, pesquisar mais, e eu gosto disso!
        Obrigada pelo incentivo!

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