Salve!

O Barão do Serro Largo pereceu em campo de batalha há quase 190 anos, e é notável que até hoje ainda paire alguma incerteza sobre que fim levaram os seus restos mortais.

 

Em 2011 – há apenas 5 anos – uma curiosa notícia foi publicada no Correio do Povo:

 

“O Instituto Cavaleiros Farroupilhas e o 6 Regimento de Cavalaria Blindado (RCB) querem trazer para Alegrete os restos mortais do marechal José de Abreu, patrono do 6º Regimento. O objetivo é fazer o translado durante a Cavalgada Farroupilha 2011, que deve ocorrer na primeira semana de setembro.
No entanto, ainda não se conhece a localização exata dos restos mortais do marechal.”

E mais:

“A vice-prefeita de Alegrete, Maria de Fátima Mulazzani, que defende a construção de um mausoléu para o militar, e o pesquisador Danilo Santos dizem que não existem informações oficiais sobre o paradeiro dos restos mortais de José de Abreu, o Barão do Cerro Largo.”

iuhasiuashuiha

Busto do Barão no 6º Regimento de Cavalaria de Alegrete. Foto: Juner Vieira/ especial / cp, reproduzida da mesma notícia.

 

Se os interessados nesta busca apenas tivessem ao seu alcance a interessante e um tanto desconhecida contribuição de Francisco de Paula Cidade em Dois Ensaios de História, teriam ali encontrado valiosas informações, as quais, agora e por partes, repasso:

 

“Onde se encontram hoje os restos mortais de José de Abreu?
Dirão todos os que se interessam pela história militar brasileira:
Nos campos do Rosário, no lugar onde foi morto e sepultado.

Tanto isso parece a verdade verdadeira, que o Clube Gaúcho de Bagé, em 1909, resolveu exumar-lhe os ossos.

Convido meus improváveis leitores a saborearem a leitura que se segue, relatando a aventura desta exumação, publicada em 1911 no Almanak Litterario e Estatístico do Rio Grande do Sul, também conhecido como Almanaque Ferreira Rodrigues – há mais de cem anos:

 

Do Almanaque Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul, 1911. Hemeroteca Digital Brasileira.

 

Assim sintetizou Cidade esta aventura:

“Aberta a sepultura tida como dele, ali foi encontrada apenas uma tíbia. Acreditou-se que a terra o tivesse consumido e a tíbia voltou para onde fôra encontrada. O General Belarmino de Mendonça, quando chefe da guarnição militar de Rio Grande, mandou levantar sobre aquele túmulo modesto monumento.(Nota de rodapé – 14)

 

ghjghjh

Única foto que pude encontrar do singelo monumento em toda a vastidão da rede mundial de telecomputadores. Foto de Félix Zucco /Agência RBS, Via ZH.ClicRBS.com.br

(…)

(14) Eis a inscrição no monumento:

À memória gloriosa do Marechal José de Abreu, Barão do Sêrro Largo e dos outros heróis a serviço do Brasil na batalha de 20-2-1827.”

 

O monumento, aparentemente no momento da inauguração. Segundo Francisco de Paula Cidade, foi erguido pelo General Belarmino de Mendonça, que comandou a 3ª Região Militar do Rio Grande entre 6 de novembro de 1911 e 20 de março de 1912.[1] Foto publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, ano VII, I e II Trimestres, 1927.

 

iosjfiojdf

A localização do monumento, destacada em vermelho no plano do campo de batalha. “Campanha de Ituzaingó”, Wiederspahn, p. 206-207.

“No entanto, há tempos, ouvi dizer que o Monsenhor Mariano da Rocha havia descoberto, num dos livros de assentamentos da Catedral de Porto Alegre, a velha Igreja da Matriz, o registro de trasladação desses restos mortais, no ano seguinte ao da batalha, para aquela igreja e ali sepultados.

Este texto é de 1966, e naturalmente o autor, Francisco de Paula Cidade, não chegou a conhecer esta grande ferramenta pela qual publico estas linhas. Se fosse o caso, facilmente, como nos dias de hoje podemos fazer, teria encontrado este registro.

 

Êi-lo:

oiasjoisdcoijdioc

Lê-se: “J.e d’Abreu. Aos vinte e hum dias do mez de Fevereiro de mil oitocentos vinte oito annos nesta Matriz de Porto Alegre sepultarão-se os ossos do Barão do Serro Largo Joze d’Abreu, que falleceo no combate entre as nossas Tropas, e as Hespanholas no dia vinte de Fevereiro de anno de mil oitocentos vinte e sette no Passo do Rozario desta Provincia, tendo de idade settenta annos, natural da cidade de Maldonado na Cisplatina, filho legítimo de João de Abreu, e de Dona Anna Maria, cazado com Dona Maria Felicianna da Conceição: foi encomendado por mim. E para constar fiz este assento. – Thomé Luiz de Souza.”

 

udfhvuifdhviufdhvuifhv

A antiga igreja Matriz de Porto Alegre, na qual foi sepultado o Barão do Serro Largo, em 1828. Nenhuma das construções nesta imagem foi mantida. Aquarela de Herrmann Rudolph Wendroth, 1852 – Wikimedia Commons.

 

De fato, foram fúteis os esforços de recuperar os restos mortais dados como esquecidos em 1909, isso porque exatamente um ano após a morte de José de Abreu, seus ossos já haviam sido exumados e transportados até a antiga Matriz de Porto Alegre. Este seguramente foi o local escolhido pela família do Barão do Serro Largo para ser o seu repouso final. A sucessão era composta pela viúva Maria Feliciana e os quatro filhos do casal, todos oficiais do exército – e tudo permite supor, aliás, que foram eles pessoalmente encarregados da funesta operação de reaver e transferir os ossos do pai morto em combate, para que fosse encomendado e sepultado em Campo Santo.

Mas em 1921, iniciaram-se as obras para a construção da Catedral Metropolitana da cidade, no mesmo local. A partir de meados do século XIX, sepultamentos dentro do perímetro central da cidade foram proibidos, e assim, a partir de 1909, os enterros no terreno da Matriz passaram a ocorrer no cemitério da Irmandade do Arcanjo São Miguel e Almas, no mesmo local em que permanece até hoje.

Mais uma vez, segundo Francisco de Paula Cidade:

 

Aliás, noticiaram os jornais que ao ser demolida aquela igreja [A antiga Matriz] foram encontrados muitos ossos, que acabaram transferidos para a cripta da nova Catedral. Já se vê que os de José de Abreu não tiveram outro destino.”

 

Em 1934, o Monsenhor Mariano da Rocha, como citado por Cidade, mandou publicar no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro uma nota dirigida a João Egon d’Abreu Prates da Cunha Pinto, complementando dois grandes artigos sobre o Barão que este último houvera publicado no mesmo ano, no mesmo jornal. Este recorte explica a situação em que se encontraram a maioria dos restos mortais que jaziam na antiga Igreja Matriz:

 

Carta do Monsenhor Mariano da Rocha a Egon Prates, publicada no Jornal do Comércio, em 12 de junho de 1934. Hemeroteca Digital Brasileira.

 

No quinto parágrafo, Mariano da Rocha faz a pergunta:

 

Os restos do nosso heroe estarão ainda na parte restante da Matriz, ou terão sido também retirados do recinto sagrado?

 

De uma forma ou de outra, ou seja, com ou sem identificação, o local onde presumivelmente terminaram os restos mortais do Barão é o mesmo:

 

iuhiuhiuh

A dita morada final: Catedral Metropolitana de Porto Alegre, situada em frente à Praça da Matriz, na mais alta rua da península onde ergueu-se o Centro Histórico de Porto Alegre, e implantada em um aclive acentuado. Este aclive comporta a cripta onde, diz-se, estariam os ossos do Barão. Foto encontrada em LaTercera.com.

 

skjfhvdfnv

Por fim, deixo aqui a planta desta cripta, divulgada por Ronaldo Marcos Bastos: “Com 8 metros de altura, 37 metros de comprimento e 47 de largura, a cripta é uma igreja semi-subterrânea. A parte mais volumosa na Catedral repousa sobre as colunas e alicerces da cripta.”

~Fim.

Desta que vos escreve,

 

helga

~Helga.

 

Em destaque: M. Domínguez-Rodrigo et al / Plos One 2013. Via ScienceNews.org.

Em destaque: M. Domínguez-Rodrigo et al / Plus One 2013. Via ScienceNews.org.

 

Principais fontes bibliográficas:

 

  • CIDADE, Francisco de Paula. Dois Ensaios de História. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1966.
  • RODRIGUES, Alfredo Ferreira. Almanak Litterario e Estatístico do Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul: Pintos &C, 1911.
  • WIEDERSPAHN, Henrique Oscar. Campanha de Ituazingó. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1961.


Fontes
[1] BENTO, Claudio Moreira et GIORGIS, Luiz Ernani Caminha. História da 3 a Região Militar 1889 -1953/Cláudio Moreira Bento – Luiz Ernani Caminha Giorgis – Porto Alegre: 1995. v. 2, 2ª Ed., 21 cm, pp. 394.

Leave A Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado.