Posts by "helga"

As cores como elas eram – 1920 a 29

Salve!

Pegando carona neste post anterior,  pensei que as cores exuberantes dos anos 20 – que na prática não se deixaram capturar no cinema e na fotografia – mereciam seu próprio lugar ao sol aqui em Extra! 

Vamos pensar em uma diva dos anos 20. Não é difícil:

klmklmkl via FilmsGraded.com

A icônica Louise Brooks, no poster de seu filme mais cult. Via FilmsGraded.com

Não é raro ver alguém tentando reproduzir o ar misterioso dessas divas – e então isso se traduz em uma maquiagem um pouco pesada, com muito contraste nos olhos, e aquele batom cor de vinho com café, ou de casca de beringela, enfim… um tom até avermelhado, mas demasiado escuro.

Mas como já comentei anteriormente:

«

Cabelos Tons vermelhos teriam parecido muito mais escuros do que eram em uma foto p&b daquela época. Isso se deveria à película ortocromática da fotografia, assim descrita na Wikipedia (livremente traduzido por mim):

A película ortocromática provou-se problemática para o cinema, fazendo céus rosados parecerem nebulosos, cabelos loiros parecerem apagados, olhos azuis praticamente brancos, e lábios vermelhos praticamente pretos.

Este tipo de película foi amplamente utilizado até 1926 e sua produção só foi interrompida pela Kodak em 1930.»

♦  Como não deixam mentir os batons originais da época, que quase invariavelmente saíam quase pretos nas fotografias e filmes:

 

♦  Vejam também alguns exemplos de posters coloridos do mesmo filme – A Caixa de Pandora – sempre com bastante cor:

 

 

♦  Na mídia impressa, a revista Photoplay de Chicago trazia as novidades de Hollywood para os fãs de cinema desde 1911. Algumas capas – todas mostrando lábios coloridos com os vermelhos mais vibrantes:

 

ijijiojo

Capa da Photoplay, outubro de 1926. Retrato de Dolores Costello, desenhado por Rolf Armstrong. Via MusicMadMamma.tumblr.

 

♦  Para terminar, deixo com vocês a cara de desdém da Louise Brooks – colorida parcialmente, bem rápido e sem muito detalhismo por mim:

 

– – ♦ – –
Fashion Illustration, 1929

Fashion Illustration, 1929. Vinda de algum lugar do pinterest.

Att,

helga

~Helga.

 

Compilação inacabada de Nomes curiosos, ∞ A ∞

Salve!

Esta é a primeira de uma série de postagens em Extra!, dedicadas a desenterrar alguns nomes encontrados no Garimpo. Navegue pela página principal – Nomes curiosos de A a Z, ou use a barra de navegação no menu lateral.

Mas primeiro, inicio com este

∞ Aviso aos navegantes ∞

Eu, tu, eles jamais pretendeu ofender. É possível que um nome que pertença a algum ente muito querido de algum leitor tenha-me parecido divertido por um ou outro motivo. Alguns nomes são descritos com uma pitada de bom-humor, outros com alguma dose de estupefação que a nada se deve, senão à minha ignorância : )

Por favor, respirem, relaxem e relevem!

~ Grata pela compreensão

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monogramas

∞ A ∞

∞ Aarão ∞
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“Na história bíblica, era filho de Anrão e Joquebede” ~Wikipedia

O artigo da Wikipedia linkado acima, aliás, inclui uma profusão de nomes bíblicos em desuso (que por isso mesmo podem soar também esdrúxulos), como Eliseba, Aminadabe, Nadabe, Adabiú e Eleazar. No caso de Aarão, é o A duplo que considero curioso.
Se bem que Isaac e Abraão também tem duplos As, e não me intrigam tanto.
Porto Alegre, 1913.

∞ Abacisa ∞
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Porto Alegre, 1913.

∞ Abel ∞
Casamento de Abel, Catedrak de Porto Alegre, 1904. Encontrado em FamilySearch

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Nome que encontrei poucas vezes em minhas horas de Garimpo. Talvez pelo fim trágico do personagem bíblico, que foi assassinado pelo irmão, Caim. O derivado Abelardo me parece tão incomum quanto, e atualmente ambos os nomes ainda não são vistos com muita freqüencia. Acima, está registro de casamento de um Abel, Catedral de Porto Alegre, 1904.

“Cain leadeth Abel to death”, de James Tissot. [Wikipedia]

∞ Abelardo ∞

Derivado de Abel, acima. Para quem já (ou ainda) lembra dos anos 80 no Brasil, Abelardo faz vir à mente o fantástico tema abertura do Cassino do Chacrinha (Abelardo Barbosa, nascido em 1917). Quem já se lembra será poupado, quem não lembra corre pro youtube, 1…2…3…!

Chacrinha, por Luiz Fernando Reis. Wikimedia Commons.

Chacrinha, por Luiz Fernando Reis. Wikimedia Commons.

∞ Abrelina ∞
Screen Shot 2015-06-28 at 12.52.24 AM

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 Porto Alegre, 1913.

∞ Abdíos ∞
Link

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Não lembro de ter encontrado este nome antes, e não faço idéia de qual a origem. Quem saberia me dizer, de onde vem este nome? Porto Alegre, 1913.

∞ Adiles ∞
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Adiles ou Adyles costuma ser um nome masculino, se bem que neste exemplo, de Porto Alegre, em 1913 – é nome de uma menina. Não conheço a real origem do nome mas não consigo deixar de pensar num híbrido de Adônis com Aquiles.

∞ Alaydes ∞
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Alaíde eu conhecia, mas Alaydes me dá uma forte impressão de plural. Porto Alegre, 1914.

∞ Alipio ∞
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Alipio me dá vontade de criar um personagem, o Seu Alípio – um homem de quem todos falam sem motivo, só porque não se cansam de pronunciar seu nome em vão. Na vida real, só encontrei o exemplo acima. Porto Alegre, 1913.

∞ Almerão ∞
Screen Shot 2015-06-29 at 9.28.42 PM

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Porto Alegre, 1913. Nome masculino que vem desta folha:

ALmeirão ou chicória amarga. Foto: Embrapa

O almeirão ou chicória amarga. Foto: Embrapa Hortaliças

∞ Altidório ∞
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São Borja, 1873.

∞ Amabilia ∞
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São Borja, 1872.

∞ Amador ∞
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Porto Alegre, 1870. A palavra amador originalmente se referia àquele que ama. Depois passou a descrever aquele que exerce uma atividade por gosto, e finalmente, passou a ser mais usada para aqueles a quem falta profissionalismo. Para os dias de hoje, fica difícil.

∞ Amandina ∞
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Nada demais com este nome – variação de Amanda – exceto que, por associação, não consigo parar de pensar naqueles bombons industrializados, crocantes e muito, muito doces.

∞ Ambrosina ∞
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Não é tão incomum, assim como Ambrósio ou Ambrósia. Mas me faz pensar no doce. Ambrosia chamava originalmente o néctar dos deuses do Olimpo, mas para mim ganha, de longe,  a memória do gosto do doce que a minha avó fazia. ♥

∞ Amilton ∞
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Porto Alegre, 1914. Pensava que a influência da língua inglesa na onomástica brasileira era mais recente? Ledo engano!

∞ Amphilognio ∞
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Casou na Catedral de Porto Alegre, em 1895. Não apenas era chamado Amphilognio, como também era filho do Major Militão com Cândida Espiridiana. Inconfundível!

∞ Antão Antonio ∞
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Antão é um nome já esquecido. Além disso, só faltou que o sobrenome do rapaz fosse Antunes. Casou em Porto Alegre, em 1896.

∞ Antiro ∞
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Porto Alegre, 1861.

∞ Apolinária ∞
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Para formar um quinteto com Olegária, Berengária, Januária e Belizária.
Porto Alegre, 1913.

∞ Ariosto ∞
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Porto Alegre, 1913.

∞ Aristotelina ∞
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Quando a intenção era homenagear o filósofo Aristóteles ao batizar o menino – e ninguém tinha um plano B, se porventura fosse uma menina. Porto Alegre, 1913.

∞ Ascindina ∞
Screen Shot 2015-07-02 at 5.10.51 PM
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Fiquei pensando que Ascindina era aquela que ascendeu. Porto Alegre, 1882.

∞ Ataídes ∞
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Porto Alegre, 1913.

∞ Atalibo ∞
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Atalibo me dá vontade de criar um personagem. Porto Alegre, 1872.

∞ Ataníbio ∞
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Porto Alegre, 1874.

∞ Áurea Athanalpa ∞
Link

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Não é preciso comentar. Porto Alegre, 1913.

∞ Azize ∞
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Porto Alegre, 1913.

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Para ⇓ ∞ B ∞ ⇓

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E para encerrar, um

∞ Segundo aviso aos navegantes ∞

As compilações estão em constante crescimento e sujeitas a alterações sem aviso prévio.

— ∞ —

monogramas

 

Att,

helga~Helga.

Colorização de uma foto de família, 1929

Salve!

Caixas de fotografias antigas sempre guardam algum tesouro. Foi somente em 2012 – e portanto, já bem grandinha – que pude descobrir a maravilhosa foto abaixo, enviada pelo meu saudoso pai. O verso da foto é tão precioso quanto, com um recadinho – ligeiramente insinuante, eu diria – para o namorado da terceira moça da esquerda para a direita, que era também o futuro marido, e foi também o meu avô super querido.

♥ Minha avó pronta para o Carnaval, em 1929 ♥
Erna(1929)

Endiabradas: as meninas formaram um mini bloco com o artifício simples de usar o mesmo acessório na cabeça. À primeiro vista alguém poderia se perguntar porque a estrela está sempre torta…? Mas com mais atenção, se percebe que as estrelas estão, na verdade, todas apontando para baixo – e, no ocultismo, este é um símbolo do submundo. As moças eram de família, mas afinal, era Carnaval! Foto: Irmãs Nilles e amigas, Porto Alegre, 1929 / Arquivo pessoal da Helga.

Achei que uma foto tão interessante merecia ser colorida. O difícil é livrar o pensamento deste tipo de imagem:

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A combinação de preto e metálico é super batida em se tratando do estereótipo de traje festivo feminino nos anos 20. Só faltaram uma piteira e um comprido colar de pérolas… vocês sabem do que estou falando! Encontrado em NotOnTheHighStreet.com.

 

Mas isso seria um passo em falso, é claro. A década de 20,* também chamada de “anos loucos”, foi um período de relativa paz e prosperidade, na primeira fase do entreguerras e anterior à Grande Depressão. As fotos eram, sim, em preto e branco, mas os exemplos sobreviventes de vestidos e a imprensa da época mostram que ela foi (ou pelo menos, em sua encarnação mais luxuosa, pretendeu ser) bastante colorida:

 

 

Então chegamos aos finalmente: hora de dar cor ao momento eternizado no Carnaval portoalegrense de 1929. Talvez fosse tudo bem mais sóbrio do que na minha imaginação, mas preferi apostar num conjunto de cores sortidas e um fundo vibrante como o espírito da época. Recomendo que deixem que os olhos passeiem um pouco pela imagem, levados pelos olhos serenos e as ondas revoltas dos cabelos dessas quatro moças.

 

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As meninas no baile de Carnaval: ao centro, Irene Nilles e Erna Nilles; nos cantos esquerdo e direito, duas moças cujas identidades ainda não descobri. Foto: Irmãs Nilles e amigas, Porto Alegre, 1929 / Arquivo pessoal da Helga. Colorizada por Helga.

As cores dos cabelos e dos olhos, aliás, vieram das memórias de uma sobrinha das irmãs Nilles, que são as moças do meio. Sobre as quatro irmãs (sendo que as duas primeiras não estão na foto), filhas de Theodoro Nilles e Henriqueta Eilert, ela disse:

“A minha tia Irma, que era a tia mais velha, ela tinha os olhos azuis, e o cabelo castanho escuro. Depois vinha a minha mãe, com o cabelo e os olhos escuros. A minha mãe foi a única que teve os olhos escuros. Vocês vão ver nas fotografias. A Wilma era minha mãe, a segunda. Aí vinha a tia Erna. Olho azul e o cabelo puxando mais para o loiro. E a tia Irene que era mais moça que tinha os olhos cor de violeta e os cabelos cor de fogo. Era a única diferente, a minha tia mais moça.”

∞ ♥ ∞

E então ao reler este trecho da transcrição desta entrevista de 2012, me deu um estalo: eu olhei mais uma vez para os cabelos da Irene. Cabelos vermelhos teriam parecido muito mais escuros do que eram em uma foto p&b daquela época. Isso se deveria à película ortocromática da fotografia, assim descrita na Wikipedia (livremente traduzido por mim):

A película ortocromática provou-se problemática para o cinema, fazendo céus rosados parecerem nebulosos, cabelos loiros parecerem apagados, olhos azuis praticamente brancos, e lábios vermelhos praticamente pretos.

Este tipo de película foi amplamente utilizado até 1926 e sua produção só foi interrompida pela Kodak em 1930. Porto Alegre não estava exatamente no epicentro das novas tendências e é bem provável que ali, em 1929, uma fotografia corriqueira ainda não dispusesse da película pancromática, cuja fidelidade de representação das cores teria sido maior.

Olhei mais uma vez para a fotografia orginal. Olhei bem para as duas figuras centrais, com os olhos parecendo muito claros, os cabelos cor de fogo da Irene parecendo escuros, e as roupas escuras parecendo ser feitas do mesmo tecido e, com simplicidade, feitas em casa, talvez especialmente para a ocasião. E me ocorreu que, talvez, essas meninas endiabradas quiseram combinar também as cores dos vestidos. E elas escolheram, eu sei, vestir encarnado.

 Foto: Irmãs Nilles e amigas, Porto Alegre, 1929 / Arquivo pessoal da Helga.

Foto: Irmãs Nilles e amigas, Porto Alegre, 1929 / Arquivo pessoal da Helga. Colorizada por Helga.

E assim, me dei por satisfeita.

Att,

helga~Helga.

∞ ♥ ∞

*Nota: Eu nasci no século XX e por isso chamo a década entre 1920 e 1929 apenas de “anos 20”. Mas é claro que em cinco anos estaremos na década de 20 do século XXI. Já posso ouvir minha filhinha de dois anos dizendo: “Eu cresci nos anos 20!”. E eu no século XX…! Quando ainda usávamos algarismos romanos.


∞ ♥ ∞

Um olhar sobre Estocolmo

Salve!

Esta é uma entrevista sobre o espaço urbano de Estocolmo…

que respondi por escrito ao amigo Ricardo Romanoff. A publicação original está aqui. É preciso dizer que o texto foi editado, corrigido e atualizado ortograficamente por um profissional da escrita – coisa que eu não sou…

*Nota (i): Foi usado meu nome mundano (Ana Rocha) ao invés do meu nome virtual Helga, que considero ser o meu nome de lazer : )

••Nota (ii): Fico devendo um post com minhas impressões mais pessoais da cidade. Um dia, minha filha talvez queira ler ; )

«

Ana, durante o período em que você viveu em Estocolmo, o que mais chamou atenção na relação das pessoas com o espaço urbano?

Chamam atenção a liberdade de ir e vir, a facilidade de acesso à natureza, o respeito pelos espaços públicos e um sentimento de propriedade coletiva, implicando tanto direitos como deveres. Numa esfera menos óbvia, aos poucos percebi vários paralelos entre a cultura da Suécia e a organização da cidade. Para citar apenas um deles, a tensão entre o conservador e o vanguardista se manifesta na vida social, assim como na arquitetura. Podemos por exemplo citar Gamla Stan e Sergels Torg: o centro medieval e o centro modernista. Sergels Torg, em seu estilo internacional, foi a modernização radical de uma área preexistente. A charmosíssima Gamla Stan estava na mira da reconstrução total desde o oitocentos, mas a persistente resistência popular evitou a sua completa remodelação até ser declarada patrimônio histórico, em 1980. O conflito social entre a tradição e o desejo de modernizar está, então, também representado no espaço urbano.

 

 Acima: Gamla Stan e Sergels Torg.

De que forma você acha que a arquitetura e o planejamento urbano da cidade favorecem trocas entre os habitantes?

Estocolmo, como qualquer grande cidade europeia, oferece grande variedade de espaços públicos e equipamentos urbanos que buscam facilitar o convívio, tais como parques, mercados, zonas pedonais, centros de lazer, teatros, museus, arenas e centros culturais, para citar alguns. A maioria destes está nas zonas mais centrais da cidade. Mas se nos voltamos para os subúrbios de Estocolmo, que é a realidade da maioria dos moradores, dois aspectos do planejamento urbano são notáveis, um pelo fracasso, outro pelo sucesso.

Começando pelo negativo, a criação de subúrbios inteiros dedicados à moradia de exilados políticos estrangeiros, estratégia abertamente criticada na sociedade, agravou a segregação cultural preexistente e ainda é uma questão a ser resolvida. Mas um aspecto excelente do planejamento urbano é a inserção sistemática de bibliotecas públicas em cada vizinhança. Qualquer morador de Estocolmo está próximo de uma biblioteca que não só armazena livros, mas oferece espaços de reunião, livre acesso à internet e vastas coleções de toda sorte de mídia. Amigos, colegas ou estranhos ligados por um grupo de interesse podem se encontrar em bibliotecas, pequenas ou grandes, centrais ou suburbanas.

Maquete de Estocolmo, exposta na Kulturhuset.

Maquete de Estocolmo, exposta na Kulturhuset (Casa da Cultura). Usada na divulgação da publicação original nas redes sociais.

Como é a experiência de viver em uma cidade formada por ilhas?

Como as ilhas são muito bem conectadas por várias formas de locomoção urbana, não há problemas, só vantagens. A navegação é, claro, muito favorecida, oferecendo a conexão entre ilhas por via fluvial, rotas turísticas, viagens para os arquipélagos e até cruzeiros internacionais, espalhados por vários portos e píeres. As opções de lazer são muitas, e assim os esportes como paddleboarding, caiaque, remo, pesca e os banhos de sol não são nada incomuns. O acesso às águas está ao alcance de todos: por exemplo, em um apartamento onde morei, em Södermalm, a vaga para um barco no píer mais próximo já estava incluída no aluguel; já uma permissão para estacionar um carro na rua da frente, não. Eu passava por pontes com vistas maravilhosas todos os dias, podia passar a hora do almoço em um agradabilíssimo bar flutuante ou simplesmente sentada saboreando a vista no passeio à margem d’água, como fiz muitas vezes. Não poderia dizer outra coisa senão o seguinte: que, para mim, viver nas ilhas no encontro das águas do mar báltico e do lago Mälaren foi de uma irrecontável beleza.

O design escandinavo é conhecido no mundo todo. De que forma ele está presente no dia a dia da cidade?

A massificação do design de boa qualidade – se não exatamente inovador ou genial – é a grande contribuição da Suécia, mais notadamente no mobiliário e na moda. A democratização do bom design, viabilizada pelo uso eficaz e inteligente de recursos, é um dos muitos reflexos práticos dos ideais igualitários do país. Outra característica cultural da Suécia é a busca do equilíbrio perfeito através do consenso: para a qualidade daquilo que atinge esta perfeita moderação, a língua sueca tem uma palavra específica e intraduzível, chamada “Lagom” – um valor idealizado a que também aspiram a arquitetura e o design. Assim, nas repetitivas e austeras construções de Estocolmo, onde muito raramente algum edifício é chamativo, mas também onde raramente há aberrações de inserção urbana, se concretiza o receio das diferenças e a busca obsessiva pela uniformidade aprazível.

Como quase tudo, essa manifestação de monotonia traz pelo menos duas consequências não antecipadas – e ambas vantajosas. A primeira, é o design de interiores. Na vida social, o egoísmo que é tão reprimido no âmbito coletivo se manifesta na esfera íntima – e no design, também. Assim, é na intimidade do lar que se faz transparecer a intensa sensibilidade e capacidade criativa da Suécia, equilibrando com invejável e inerente maestria o universal e o peculiar, o vazio e o acolhedor.

style-studio-anna-mard

Alguns trabalhos que representam bem o estilo escandinavo, por Style Studio: Interior and Styling by Anna Mård.

A segunda é a apreciação da natureza, a cujos espetáculos diários são permitidos em muito ofuscar a arquitetura discreta da cidade. No cotidiano de Estocolmo, gestos arquitetônicos sutis são desinteressantes se comparados à beleza natural da cidade, em suas ilhas montanhosas, penínsulas e istmos, emoldurados pelo surpreendente e intenso azul do céu.

Por fim, há quem diga que, de alguma forma, seguimos vivendo em certos lugares, mesmo quando estamos distantes. O que de Estocolmo fica guardado com você?

O que ficou em mim é intangível, é imaterial. As pessoas. Meus amigos e nossas conversas. As paisagens, as sensações, as estações, os rituais, a língua, a brisa na ponte de Slussen. Encontros. As festas, que são todo um capítulo à parte na memória. Os extremos: dias curtos, noites sem fim; dias sem fim, noites mal anoitecidas. Esperar para dormir ao escurecer, e acabar por não dormir. A vista de um certo amanhecer de verão, de uma tarde que nunca chegou a ser noite, e a cor indescritível do céu salpicado de balões sobrevoando a cidade, na madrugada em que minha filha nasceu.

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Vista de Estocolmo durante o festival de balonismo. Encontrado em Hot air balloons are a common sight in the summer. Photo: Jeppe Wikström

Vista de Estocolmo durante o festival de balonismo. Encontrado em VisitStockholm.com. Photo: Jeppe Wikström.

 — ♦ —

Att,

helga~Helga.

O hospital de Södermalm, Estocolmo (Södersjukhuset), em 1951.

O hospital de Södermalm, Estocolmo (Södersjukhuset), em 1951. Wikimedia Commons.

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As vidas

~ Este é um pensamento para um amigo que acaba de sofrer uma grande perda. ~
–– ♣ ––

Por mais longo que seja, o tempo entre lutos nunca é longo o suficiente. Desta vez, é o pesar inesperado e repentino de um amigo que me faz recordar as circunstâncias do meu luto mais recente, para o qual a genealogia foi mais do que um alívio: foi, e ainda é, uma forma de terapia.

Para refletir que o mero reconhecimento da existência prévia de nossos ancestrais pode nos fortalecer, deixo aqui um lindíssimo poema de Pablo Neruda, do livro Los Versos del Capitán.

–– ♣ ––

   «

Las vidas

¡Ay que incómoda a veces
te siento
conmigo, vencedor entre los hombres!

Porque no sabes
que conmigo vencieron
miles de rostros que no puedes ver,
miles de pies e pechos que marcharon conmigo,
que no soy,
que no existo,
que sólo soy la frente de los que van conmigo,
que soy más fuerte,
porque llevo en mí
no mi pequeña vida
sino todas las vidas,
y ando seguro hacia adelante,
porque tengo mil ojos,
golpeo con peso de piedra
porque tengo mil manos
y mi voz se oye en las orillas
de todas las tierras
porque es la voz de todos
los que non hablaron,
de los que non cantaron
y cantan hoy con esta boca
que a ti te besa.

~ Pablo Neruda »

 

 

∞  a vida continua  ∞

Meus sentimentos,

~Helga.